quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Epitáfio

- Pai
- Oi
- Tenho medo do meu futuro
- Por que?
- Sei lá, eu tenho medo de descobrir que todos meus ideais e todos meus pensamentos estavam errados, tenho medo de estar defendendo uma causa que não vai ser vencida,de não conseguir ser eu mesma só para agradar alguém, tenho medo.
- Acontece.
- Pai
- Oi
- Quantos planos e sonhos mudaram depois que cresceu?
- Tudo muda, eu vi alguns amigos que saiam para os shows comigo agora indo para igreja de paletó e gravata; amigos que eu jurava serem eternos morrerem... não morrerem e serem enterrados, alguns sim, mas outros apenas morreram para mim. Eu vejo como o gosto musical mudou e agradeço por ter nascido na época certa, na época da revolução escondida no meio das letras, e sabe o que é mais gratificante? Saber que eu posso passar isso para você. Eu me lembro de colecionar tudo que saia do Raul, lembro da sua vó lendo versículos para mim sentada na beira da cama e eu cantando Metamorfose Ambulante em pensamento. Lembro da sua mãe, que usava umas roupas legais, ela era a que mandava no grupo da escola, sempre foi chata (haha), eu nunca fui fiel a nenhuma menina, entrava no cinema com uma e saia com outra... e a dona simoninha foi a unica que ficou do meu lado, eu causava com ela, mas ela sempre estava ali, acho que isso que fez a diferença, sabe? E quero que você seja assim também, não seja lerda, mas não quero que seja fácil, porque ninguém dá valor, nunca deram e nunca vão dar. Faz um charme, usa uma roupa discreta no dia-a-dia e surpreenda todos quando tiver uma festa, não mude seu gosto por nada, mesmo que falem que você escuta o som de alguém que fuma, usa drogas, alguém que ninguem mais ouve... não liga, isso sempre acontece.
Me admira ver que mesmo com todos os erros que eu cometo, e mesmo não te dando tanto amor quanto você precisa; ver você correndo atrás dos seus estudos, tendo sonhos tão grandes, cada dia você me surpreende mais. Quando sua mãe me falou que estava grávida, eu assumo que não estava pronto, tive medo do futuro,como você disse, mas hoje eu olho para você e vejo o quanto eu cresci depois disso. Ver você crescendo me faz perceber que eu estou ficando tão velho, eu me canso as vezes de correr, ou de andar de bicicleta com você, mas é bom estar do teu lado. É bom colocar um cd meu e ver você cantando junto, ver você aprendendo a tocar violão comigo, conversar com você sobre as coisas que eu conversava com meus amigos, esses negócios de como as pirâmides foram construídas ou se existem mesmo aliens ! (haha) Gosto de ter você do meu lado...
- Pai
- Oi
- Me orgulho de ter você como meu melhor amigo
- Gabi
- Oi
- Me orgulho de ser o seu pai, ah, claro, e de você não ter um piercing no umbigo também.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

CAPÍTULO CXVII

Nesta igreja nova não há aventuras fáceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdócio, a reprodução um ritual. Como a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ser humano, bicho estranho


Nunca esta contente com o que tem, sempre querendo mais e mais, não basta descobrir a Lua, é preciso descobrir toda Via-Láctea e quem sabe todo o universo.
Se cortamos o cabelo queremos ele comprido, se colocamos calça queremos short, se estamos sozinhos queremos namorar, se namoramos queremos a vida de antes, nada nos preenche?
Falar de amor é, talvez, o sentimento mais fácil de se descrever, mas falar sobre o que nos preenche é um mistério. Talvez porque pouquíssimas pessoas já se sentiram assim, completas.
Sabe aquela manhã na praia? Quem sabe não seja esta a sensação... não conseguir pensar em nada, como se o barulho das ondas tampasse nossa boca e levasse embora nossos pensamentos, mas quando nos damos conta e voltamos ao mundo, o peso sobre nossas costas parece estar maior. Seria possível associar vida com preenchimento ou estamos aptos a dividir nossos dias entre bem e mal; guerra e paz; vazio e cheio?
O bom mesmo é viver neste extremo, para diferenciar o que nos faz bem e o que não faz, afinal, se sentíssemos o mar dentro de casa que graça teria olhar aquele azul transparente refletindo o calor do Sol?