quarta-feira, 16 de junho de 2010

Camilo Pessanha

Passou o outono já, já torna o frio...
-outono do seu riso magoado.
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
-O Sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! águas do rio,
fugindo sob o meu olhar cansado,
para onde me levais meu vão cuidado?
aonde vais, meu coração vazio?

ficai, cabelos dela, flutuando
e, debaixo das águas fugidias,
os seus olhos abertos e cismando.

Onde ides a correr, melancolias?
- e refractadas, longamente ondeando,
as suas mãos translúcidas e frias...



Camilo Pessanha

domingo, 13 de junho de 2010

Aluísio Azevedo

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.

Aluísio Azevedo

domingo, 23 de maio de 2010

Que seja único

Sei que fiz pouco caso do amor que me entregaram de maneira pura e gratuita, só porque eu achava que podia encontrar coisa melhor. Se as pessoas estão sempre indo e vindo, eu só queria alguém minimamente eterno em sua duração, que me fizesse parar de achar normal essa história de perder as pessoas pela vida.