domingo, 13 de junho de 2010

Aluísio Azevedo

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.

Aluísio Azevedo

domingo, 23 de maio de 2010

Que seja único

Sei que fiz pouco caso do amor que me entregaram de maneira pura e gratuita, só porque eu achava que podia encontrar coisa melhor. Se as pessoas estão sempre indo e vindo, eu só queria alguém minimamente eterno em sua duração, que me fizesse parar de achar normal essa história de perder as pessoas pela vida.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eis

Que existem dias bons e dias ruins todos sabemos, mas existem os dias sem classificação, aqueles do qual coisas que não presenciamos todos os dias acontecem: uma morte, um telefone inesperado, uma visita inusitada, uma notícia que prende nossos corações.
Hoje é um dia desses, uma cena que talvez nunca saia da minha cabeça. E são cenas assim, sem menos esperar, de uma hora pra outra, em minutos, que guardamos para nos lembrar das desgraças que ja passamos, e usamos como lições, reflexoes ou apenas assunto em rodas de amigos.

O que você faria vendo um humano qualquer, simples mortal, desistir da vida ? Mobilizando um viaduto, policiais, bombeiros, pessoas curiosas, amigos, parentes, seus vizinhos, sua mulher, sua filha.
Chorar sem lágrimas o desespero que o coração exerce, sem saber ao certo o porquê. Pendendo sua vida á força dos braços diante de uma multidão aos prantos, pedindo que novamente seus pés firmem em terra.